segunda-feira, maio 23, 2005

solidão acompanhada

Já faz uns 3 ou 4 anos num dos primeiros festivais de cinema de tiradentes. Como sempre havia decidido viajar na última hora e, pra minha surpresa dessa vez não apareceu nenhuma alma salvadora com um cantinho pra me hospedar.
Resolvi sair andando esperando encontrar qualquer lugar, mas nada. Quando estava voltando, em direção à praça central vi uma grande casa branca com um anão à porta. Senti algo estranho, mas dada a situação decidi tentar. À medida que ia me aproximando via seu sorriso se abrindo e os braços se agitando freneticamente, como se eu fosse uma grande oportunidade... fiquei incomodado mas perguntei se poderiam me alugar um quarto para passar a noite, avisei q estava meio sem dinheiro mas disseram não haver problema.
Ao entrar naquele lugar mal iluminado tudo parecia bastante quieto mas havia um silêncio audível que me incomodava bastante e já era tarde demais pra voltar atrás.
Fiquei num quarto onde a única coisa que não era branca era a cama de aço cinzento meio enferrujada e algumas aranhas na quina do teto pareciam embrulhar o jantar. tudo decidido e combinado... resolvi dar uma volta e o anão me olhou desconfiado e pediu para que pagasse antecipadamente. Fiz isso, mas realmente tinha em mente a tentativa de passar a noite andando pela cidade e se possível não dormir lá.
Durante a noite não encontrei sequer um conhecido e por volta das 23 horas já não havia ninguém nas ruas, a não ser um bêbado que falava sozinho uma garota acompanhada de seu namorado que parecia tentar protegê-la das sombras daquela estranha e fria noite.
Andei mais um pouco e me dei com uma matilha de cães que rosnavam para mim... vi que era melhor voltar ao lugar onde havia sido acolhido. Voltando lá havia uma senhora mais velha vestida de branco com brincos azul turquesa e óculos de armação preta grossa e quadrada. Ela não tinha muitos dentes mas parecia limpinha. Disse a ela sobre o ocorrido: q um anão havia me alugado um quarto ao final daquele corredor e ela me ofereceu algo para dormir, mas recusei ingenuamente.
Quando finalmente me deitei os sons daquela raivosa matilha pareciam ecoar na minha cabeça. Decidi ignorar isso e dormir. Porém comecei a ouvir gemidos e gritos insanos seguidos de sons de portas que se abriam e fechavam, além de barulhos de velhos colchões de mola sendo pressionados. abri os olhos e, como se estivesse anestesiado do pescoço para baixo ouvi passos semelhantes aos do anão passarem, duas ou três vezes, pela minha porta e em ritmo acelerado. Logo depois ouvi a voz daquela velha senhora que parecia meio nervosa, mas os gritos continuavam até q foram se tornando sussurros e depois só conseguia os ouvir dentro de minha cabeça.
Continuava me sentindo imobilizado mas como que com muita coragem fechei os olhos e pus o lençol sobre minha cabeça. Ouvia agora aqueles gemidos em off e o som de uma árvore, próxima a minha janela, que balançava com o vento.
A noite toda se passou numa estranha solidão acompanhada, onde a companhia dessa solidão me fazia querer me sentir ainda mais só.
pra minha felicidade o dia havia nascido ...eu me encontrava suado, mas muito aliviado embora sentisse um pouco de medo pra abrir a porta... qdo tentei me levantar da cama, algo parecido com um carrinho havia passado pela porta mexeu na fechadura mas a voz do anão impediu que abrisse dizendo que era um hóspede e ouvi um som de surpresa alegre seguido de nova correria.me apressei pra sair e demonstrar que realmente havia gostado do lugar, mas infelizmente não poderia passar a outra noite pois já estava de saída...

Nenhum comentário: