terça-feira, maio 31, 2005

Guerra?


No momento contemplo um vácuo.

Onde estão aquelas nobres guerras que tanto lemos em livros e assistimos nos cinemas?
Penso muito se já existiram pessoas realmente motivadas pela coragem e patriotismo. Normalmente vemos muita gente falar de grandes heróis e seus sacrifícios pela pátria, pela religião e às vezes pela humanidade.

O sacrifício da guerra é, provavelmente, o mais contestável de todos. Dificilmente alguém vai para a guerra porque se convenceu disso, normalmente vão persuadidos e iludidos... ...movidos pelo medo de deserção ou pela possível remuneração de se tornar um herói desses idolatrados por todos... mas acho que na verdade enfrentam tanta miséria, vêm tanta dor e sofrimento que o mais incautos acabam preferindo desistir da própria vida para se verem livre de tal situação ...outros já se deixam dominar pelo medo e, normalmente, sobrevivem aos conflitos provavelmente para contar o que viram e algumas vezes poderem se desculpar dizendo ter feito o que realmente desejaram fazer.

De certa forma, o arrependimento de não ter feito aquilo que sabíamos que devíamos fazer é a raiz de todo trauma e, provavelmente, a grande prova de fraqueza do patriotismo norte-americano esteja no trauma vivido pelos sobreviventes da guerra do Vietnã, que voltaram e foram recebidos como um lixo a ser reciclado. Talvez tenha sido a vergonha de si mesmos exteriorizada nos que agiram coagidos... mas não sou contra americanos, isso é só uma ilustração factual.

A gente aqui no Brasil sofre mais as consequências econômicas de uma guerra ou outra que acontecem por aí. Mesmo assim acompanhamos esse espetáculo torcendo por um ou por outro. Tal qual uma partida de futebol. Sim, eu disse futebol J

Afinal todo jogo é uma guerra, ou será que toda guerra é um jogo?

Não, ...um momento.

Não parece correto fazer uma distinção direta de tais conceitos. Pois um carregará coisas do outro. Acho que a palavra jogo independente de ser uma atividade de entretenimento, é uma atividade que segue regras que permitem a definição de um vencedor e um perdedor, porém pode ou não haver uma disputa entre os jogadores. No caso da loteria é um jogo onde não há uma disputa direta entre os jogadores.

Já sobre as guerras é comum ouvirmos que todos sempre saem perdendo. Numa guerra dificilmente é disputada por indivíduos, por mais ignorantes que sejam eles não arriscariam perder suas vidas por causa de uma idéia ou atitude. (me refiro aos indivíduos isolados, livres de qualquer ideologia e sem relações com instituições, times de futebol, famílias ou tráfico de drogas). Guerras parecem envolver um sentimento de altruísmo às avessas. Primeiro porque a consciência se restringe à defesa de uma causa ou localização geográfica. Segundo porque envolve um mau uso da idéia de liberdade, uma vez que a decisão de se entrar em guerra nunca é autônoma. E terceiro porque se coloca como um mal que deve ser feito em nome do bem...

Por outro lado, se conseguimos instrumentalizar a guerra, isto é submetê-la a regras para se atingir determinados objetivos, podemos encontrar uma guerra mais digna de se lutar.

Tudo bem que os gurus do marketing venham fazendo isso volta ou outra, pra aumentar o lucro de suas empresas, em nome do bem-estar dos consumidores, mas não é a esse charlatanismo que me refiro. Refiro-me primeiro ao preceito que diz “vencer a si mesmo vale mais que vencer inúmeras batalhas”.

Acredito que agindo segundo esse preceito passamos a ver todo o nosso cotidiano como uma guerra ou, dependendo de nossa disciplina, como um jogo. Guerra, porque, a todo o tempo, temos vontade de fazer coisas, como dormir, ler, sair andar, falar e, muitas vezes quando nos vemos impedidos de exercer tais atividades nos sentimos atacados e acabamos nos irritando com os autores de tais impedimentos. Jogo, porque sabemos que existe uma maneira de alcançar a conquista de nossos objetivos e essa maneira nos coloca a agir sob determinadas regras.

Ainda assim, nessa batalha não nos veríamos genuinamente autônomos. Vencer a si mesmo parece envolver a conquista de rigidez impossível de ser abalada externamente, a não ser que nos deixemos abalar. Tais abalos quando ocorrem, normalmente ocorrem por fraquezas de nossa mente, sejam nossas emoções negativas, seja a superestimação de nós mesmos em relação impenetrabilidade de nossas mentes.

Muitas vezes não reparamos que, quando bocejamos ao ver outrem bocejar, estamos sendo avisados por nosso próprio corpo, que não estamos no controle de nós mesmos.

Temos uma natureza forte, nascemos com ela, somos animais que imitam, a maior parte de nossas criações são resultados da observação, imitação e manipulação do meio no qual estamos imersos. Entretanto não somos apenas animais que imitam, temos uma inegável natureza animal, porém somos também capazes de abstrair o mundo exterior e refletir sobre nós mesmos, mesmo que por um milésimo de segundos, sabemos que existimos.

Nossa mente muitas vezes é como um tanque cheio de roupas sujas, quando conseguimos encontrar o vazio da água cristalina, podemos dizer que nos encontramos a nós mesmos.
Desculpem o tamanho desse post, mas foi um parto doído.

segunda-feira, maio 23, 2005

solidão acompanhada

Já faz uns 3 ou 4 anos num dos primeiros festivais de cinema de tiradentes. Como sempre havia decidido viajar na última hora e, pra minha surpresa dessa vez não apareceu nenhuma alma salvadora com um cantinho pra me hospedar.
Resolvi sair andando esperando encontrar qualquer lugar, mas nada. Quando estava voltando, em direção à praça central vi uma grande casa branca com um anão à porta. Senti algo estranho, mas dada a situação decidi tentar. À medida que ia me aproximando via seu sorriso se abrindo e os braços se agitando freneticamente, como se eu fosse uma grande oportunidade... fiquei incomodado mas perguntei se poderiam me alugar um quarto para passar a noite, avisei q estava meio sem dinheiro mas disseram não haver problema.
Ao entrar naquele lugar mal iluminado tudo parecia bastante quieto mas havia um silêncio audível que me incomodava bastante e já era tarde demais pra voltar atrás.
Fiquei num quarto onde a única coisa que não era branca era a cama de aço cinzento meio enferrujada e algumas aranhas na quina do teto pareciam embrulhar o jantar. tudo decidido e combinado... resolvi dar uma volta e o anão me olhou desconfiado e pediu para que pagasse antecipadamente. Fiz isso, mas realmente tinha em mente a tentativa de passar a noite andando pela cidade e se possível não dormir lá.
Durante a noite não encontrei sequer um conhecido e por volta das 23 horas já não havia ninguém nas ruas, a não ser um bêbado que falava sozinho uma garota acompanhada de seu namorado que parecia tentar protegê-la das sombras daquela estranha e fria noite.
Andei mais um pouco e me dei com uma matilha de cães que rosnavam para mim... vi que era melhor voltar ao lugar onde havia sido acolhido. Voltando lá havia uma senhora mais velha vestida de branco com brincos azul turquesa e óculos de armação preta grossa e quadrada. Ela não tinha muitos dentes mas parecia limpinha. Disse a ela sobre o ocorrido: q um anão havia me alugado um quarto ao final daquele corredor e ela me ofereceu algo para dormir, mas recusei ingenuamente.
Quando finalmente me deitei os sons daquela raivosa matilha pareciam ecoar na minha cabeça. Decidi ignorar isso e dormir. Porém comecei a ouvir gemidos e gritos insanos seguidos de sons de portas que se abriam e fechavam, além de barulhos de velhos colchões de mola sendo pressionados. abri os olhos e, como se estivesse anestesiado do pescoço para baixo ouvi passos semelhantes aos do anão passarem, duas ou três vezes, pela minha porta e em ritmo acelerado. Logo depois ouvi a voz daquela velha senhora que parecia meio nervosa, mas os gritos continuavam até q foram se tornando sussurros e depois só conseguia os ouvir dentro de minha cabeça.
Continuava me sentindo imobilizado mas como que com muita coragem fechei os olhos e pus o lençol sobre minha cabeça. Ouvia agora aqueles gemidos em off e o som de uma árvore, próxima a minha janela, que balançava com o vento.
A noite toda se passou numa estranha solidão acompanhada, onde a companhia dessa solidão me fazia querer me sentir ainda mais só.
pra minha felicidade o dia havia nascido ...eu me encontrava suado, mas muito aliviado embora sentisse um pouco de medo pra abrir a porta... qdo tentei me levantar da cama, algo parecido com um carrinho havia passado pela porta mexeu na fechadura mas a voz do anão impediu que abrisse dizendo que era um hóspede e ouvi um som de surpresa alegre seguido de nova correria.me apressei pra sair e demonstrar que realmente havia gostado do lugar, mas infelizmente não poderia passar a outra noite pois já estava de saída...

sexta-feira, maio 13, 2005

Viagem ao centro do EU

Somos capazes de qualquer coisa, pois, de certa forma, tudo está em nós. Tudo o que vivemos desde nossos primeiros instantes de vida é armazenado em algum lugar dentro de nós.

Porque gostamos mais de determinadas cores do que de outras? ...talvez as cores que nos tragam mais conforto tenham sido aquelas associadas a coisas com as quais costumávamos dormir enquanto crianças... bom, não importa muito dar uma explicação sobre como formamos nosso gosto, mas muitas vezes é importante lembrar que muito disso nos aprisiona nos impedindo de entrar em determinados lugares, experimentar determinados alimentos, ou mesmo conhecer determinadas pessoas. Por outro lado é muito disso que nos protege e nos dá uma certa segurança e bem estar.

Não sei se existe uma tal coisa que se denomine felicidade. Sinto-me bem com várias atitudes que executo com filmes, com vozes, músicas e até com determinadas pessoas, mas nunca teria a humildade de dizer que isso ou aquilo me traria felicidade. Acho até que seria um absurdo tal coisa, dizer que nossa felicidade está naquilo que gostamos de ter ao nosso lado, pra mim, isso seria um tipo de prisão, já que se tirassem de nós aquilo que antes considerávamos que nos trouxesse felicidade, ficaríamos infelizes e assim nossa felicidade dependeria incessantemente de coisas fora de nós.

Imagino que se felicidade existe mesmo, seria algo mais parecido com a liberdade, ou um estado de espírito que independe do que está à nossa volta. Ainda assim desejamos incessantemente o que não temos, ou aquilo que nos faz falta, ou aquilo que sabemos que de alguma forma nunca poderemos ter. Tocar o sol, já desejei tocar o sol quando criança, sem fazer ideia de que muito antes de toca-lo já teria me sublimado ficando em mim só aquilo que realmente me pertenceria, nem meu corpo, nem minhas memórias, apenas um eu que acaba de se descobrir como não-eu.
Se nascemos crescemos e morremos, é porque nossa autodestruição não nos pertence. O que nos pertence parece estar em constante construção à medida que aquilo que não nos pertence simplesmente desaparece.

Mas afinal que é isso? talvez seja a vida, talvez seja a prova de que existem coisas que se pudessem realmente ser explicadas numa sequência causal deixariam de ser verdadeiras no momento dessas explicações. E fossem sendo passadas constantemente de conceitos em conceitos... e à medida que fôssemos encontrando explicações para determinados conceitos, acabávamos construindo novos conceitos para carregar aquilo que ainda não conseguimos explicar adequadamente e, quando extrapolamos determinados limites, caímos no mundo do misticismo onde muitos se perdem... dando significados unicamente subjetivos impossíveis de ser e comunicados aos outros. Talvez algo sem sentido ou algo que possa apenas ser vivenciado, mas nunca proferido a outra pessoa com a mesma significação.

Apesar de tudo ainda há uma necessidade de busca, uma necessidade de completude, que de certa forma nos alimenta de vida, talvez seja mesmo algo material, empírico e causal a explicação de nossa existência. Talvez exista uma lei capaz de dar constância a tudo isso, porém, talvez seja essa uma lei impronunciável, que não podemos impor a ninguém que não a nós mesmos... nem por isso a deixamos de pratica-la em nosso dia a dia. Uma lei para a liberdade.

quinta-feira, maio 12, 2005

O eu e os outros num pequeno instante do dia

Fui abrindo caminho lentamente, entre aquelas pessoas que se movimentavam desordenadamente. Pisei num pedaço de revista com uma mulher em preto e branco olhando de lado e meus olhos passaram pelo pedaço do título "Poderosa Ev", não estava completo, mas dava pra saber queriam dizer poderosa Eva. Levantei a cabeça quando duas pessoas de aparência marginal olharam em minha direção e segui adiante me esquivando quando considerava necessário. Olhando do outro lado da rua aquele camelô maluco parecia agitar suas bugigangas contra os andarilhos que não olhavam para o lado me fez mudar de direção e, meio que me sentia empurrado em direção ao norte. O telefone vibrou atendi e percebi que estava me atrasando, era preciso parar de prestar atenção no meu interior, pois um computador precisava de minha ajuda, quase não pelo dinheiro, mas pela sensação de conforto que a conjugação do verbo ajudar parece provocar em nós. Fui até lá, o problema não era grande e foi facilmente resolvido, mas as pessoas parecem se surpreender sempre com a ligação que tenho com as máquinas.. muitos chamam isso de dom, mas nunca acreditei em dons, apenas no amor pelas coisas de criança que conseguimos preservar quando crescemos.

Apesar de não haver qualquer sinal dela na região, eu sentia sua presença ao meu lado, como se
estivesse condenado a estar sempre acompanhado, sem cobrar ou ser cobrado, sentia uma segurança confortante. Eu poderia ficar parado no cruzamento da getúlio vargas com a cristóvão colombo de olhos fechados pois sabia que nada me aconteceria, porém se desconfiasse de algo e, naquele instante abrisse os olhos, tinha quase certeza de que algo sairia errado. Contudo, há um risco em manter os olhos fechados, o risco de me deixar dominar pelo medo. Abri os olhos olhei primeiro em direção ao céu, mas vi um prédio comercial e uma câmera que vigiava o trânsito e com certeza havia me registrado. Pensei no outro lado da camera, quem estava lá e o que pensava... me dei conta de que esta era uma cena que dificilmente seria descrita como positiva numa dessas estatísticas... por outro lado, havia uma coisa q somente outro ser humano é capaz de perceber e estatística alguma parece ser capaz de medir.