quarta-feira, novembro 09, 2005

“camada externa que limita o corpo de um animal” (Dic. Houaiss)

Nada me ocorre agora que eu possa contar de forma fluida. Acho que to travado. Não que não tenha o que dizer, mas o que me falta é o como dizer.
É uma situação complexa.
Bom, venho lendo muito sobre o atual paradigma da linguagem e uma coisa chamada “virada lingüístico-pragmática da filosofia contemporânea”, e eles sempre repetem “a linguagem é o medium intransponível de todo sentido e validade”, por um lado tudo bem que até nosso pensamento é linguisticamente mediado. Mas queria ver mesmo é quando eles se encontrassem travados como me encontro agora, nesse exato momento.
Peguei um livro aleatoriamente em minha prateleira, mas minha mão me levou a um que ainda não li. Abri e a primeira coisa que leio é “A linguagem é uma pele”. Putz, mas que perseguição, porque tinha que pegar a droga do livro do Roland Barthes (fragmentos de um discurso amoroso) pra ler uma proposição tão iluminadora que ele desperdiça continuando com ”...fricciono minha linguagem contra o outro.”?
Tudo bem, tudo bem, o cara também parece meio travado, mas não sinto que o que ele tem pra dizer nesse momento é o que to procurando... Mas pegando o que me parece útil nesse trecho, vamos esquecer o Barthes e continuar, como se ele não existisse...
“A linguagem é uma pele” sim, isso combina com “a linguagem é o medium intransponível de todo sentido e validade”. Mas eu aqui travado vejo que tem alguma coisa mais pra dizer sobre isso e ainda não encontro a linguagem.
Tudo bem que to devaneando pra vocês com minha frágil linguagem, mas ainda assim, se vocês não vivenciam isso, não tem como fazer idéia do caos que empaca meu pensamento. Eu já desisti de ser “profissional” e fazer as coisas com a frieza e objetividade que o mundo tanto pede.
Mas tenho o direito de pensar por mim o que me é apresentado e não to a fim de abrir mão desse direito assim tão gratuitamente.
Voltando à pele, a pele é um órgão que de certa forma nos permite sentir as coisas que nos cercam e também parece proteger nosso interior. Tudo bem que na arte contemporânea a gente observa certa tendência ao escalpo de tudo o que é humano. Mas a pele é também aquilo que cobre e esconde todas as nossas falhas, opiniões e até mesmo aquilo que temos medo de expor aos outros está oculto em nossa pele. Quando perdemos as rédeas de nós mesmos, vocês podem imaginar a catapora verborrágica que aparece...
Se a linguagem, enquanto pele, é o que permite todo sentido e validade quando estamos em contato com os outros, a linguagem, por mais sincera que seja, parece ocultar sempre algo ...e não adianta implorarmos para que confiem no que dizemos... tudo vai sempre depender da confiança no que acreditamos ter no interior de nossa pele.
Se estou travado, estou certamente inseguro, não dar significação ao que penso e de certa maneira me vejo engasgado, talvez por não querer enganar ninguém, talvez por não querer que descubram que, como a totalidade das pessoas, também não sou perfeito em tudo. Entretanto, de certa maneira, desejamos que os outros reconheçam nossas qualidades, mesmo que seja a habilidade com a qual expomos nossas falhas próprias.
Ah eu não sei se a linguagem é tão intransponível assim, mas entendo todos os artistas que arrancam a pele de si e de outros, entendo também o medo que sinto ao dizer o que realmente sinto sem com isso parecer um charlatão ou conquistador barato, ...a pele que separa the good, the bad, and the ugly é muito tênue e, mesmo que nunca cheguemos lá, no horizonte parece haver um consenso.
gostaria agradecer ao Barthes, pelos fragmentos... ...pelas contribuições semióticas também :)